Deram um abraço, algo que nenhum dos dois seria
capaz de descrever bem... Se havia saudade, uma despedida ou a vontade de nunca
soltar. Ao se separarem os olhos dela estavam úmidos, a voz dele era tremula
quando disse: "Espero que este abraço não seja o último". Até o pior
dos cafajestes poderia ensaiar essa fala, mas nunca soaria tão sincero como
quando ele a pronunciara. Ela abriu a porta do carro e antes de descer pediu
"Espere eu entrar para ir embora - não quero ver-te partir". Ele
disse em tom quase inaudível "Ta bom". Então ela desceu e caminhou em
direção as escadas, com um aperto no coração por não poder olhar para trás e
sorrir, com a certeza que sempre tivera de que o veria novamente estacionado
naquele local, porque sabia que não veria. Ele por sua vez não foi capaz de
esperar tanto assim, vê-la entrando sem olhar para trás também lhe doía, não
queria ver. A raiva que sentia quando ela insistia em sair em seus trajes de
dormir já não lhe afetaram dessa vez, pois sabia que ela o fez de propósito,
apenas para provocar-te uma reação do tipo "Você está ultrapassando os
limites que estabelecemos". Esses limites não existiam mais. Ela entrou
procurando um lugar para chorar, ele foi embora procurando motivos para não
chorar. Homens não choram, é assim que tem que ser. "Eu tenho um papel a
cumprir" pensava ele, tinha que chegar em casa inteiro, por dentro e por
fora, mesmo que aquela garota lhe tenha roubado boa parte do que possui por
dentro. Mas esse buraco poderia ser preenchido com as partes dela que ficaram
para ele. Eles se afastaram, estavam dentro um do outro mas nunca tão distantes
como agora. Não se falaram mais. Apenas em pensamentos, onde cada um ensaiava o
que diria e qual era a resposta. Não passou disso.
Por favor, vamos parar por aqui. Eu odeio brigar e eu sei bem onde isso pode terminar. Não se faça de desentendido e não diga que não estamos tendo uma briga, porque eu sei reconhecer uma. Eu sabia, estava tudo perfeito demais. Eu odeio a forma que você me faz parecer tão errada. Você era perfeito... Até discordar de mim. Dessa vez, eu admito, eu me surpreendi. Eu costumo ‘escolher’ os caras de quem eu vou gostar, e você caiu como de pára-quedas na minha frente, com todas aquelas palavras fofas e cantadas baratas. Pois agora quem precisa de um pára-quedas sou eu, pois eu sinto que estou caindo e não sei o que eu irei encontrar. Você já sabe que eu adoro clichês e que eu odeio ser surpreendida. Recusei um pedido de namoro de baixo das cobertas escondido da minha mãe, porque em um cavalo seria muito mais impressionante – mesmo você ironizando que há muitos cavalos em sua casa. Mas isso não é justo, em contos de fadas príncipes vem em cavalos... E se você for o meu...
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